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domingo, 15 de março de 2020

HISTÓRIA DO SERVIÇO POSTAL



                Na Idade Média, o "correio do rei" cavalgava velozmente pelas estradas escarpadas e tinha sempre precedência sobre os demais viajantes. 
              O soldado de Maratona foi enviado a Atenas e correu até cair morto às portas da cidade no ano 490 a.C., após haver anunciado a vitória de Milcíades sobre os Persas; foi a primeira e mais gloriosa vítima do Serviço Postal.
                O "uniforme" dos antigos carteiros chineses, chamados "homens fortes", era constituído de uma lanterna e de uma sombrinha, adornada de campainhas. 
             É indiscutível que uma das primeiras necessidades do homem foi a de poder comunicar-se com seus semelhantes, quando longe destes. Mas, entre os vários povos da Antiguidade, Assírios, Babilônios, Egípcios, não se sabe a quem atribuir a iniciativa de uma primeira e regular troca de correspondência. 
               Na África primitiva, os negros, para comunicar-se entre si ou transmitir sinais de guerra ou de caçadas, empregavam o tantã, que percutiam ritmicamente com as mãos. No profundo silêncio da floresta, o tantã possui um som sinistro e sugestivo. Os indígenas ainda utilizam a fumaça para comunicar-se. 


            Pode-se afirmar, com certeza, porém, que há mais de dois mil e quinhentos anos, já existia uma organização dessa natureza. De fato, durante escavações efetuadas no Egito, no século IXX, foram encontrados invólucros de argila, contendo correspondência permutada entre os Faraós do Egito e os Príncipes da babilônia e Mesopotâmia.
                 A respeito dos  Gregos, há poucos testemunhos de sua organização postal, o mesmo não acontecendo, entretanto, com os Romanos, dos quais sabemos como um Serviço Postal, denominado "Cursus Públicus", foi aperfeiçoado pelo Imperador Augusto, que pôs na chefia do mesmo o Prefeito do Pretório, o qual, coadjuvado por vários Magistrados, era responsável pela eficiência e celeridade do serviço. 
              O "Cursus Públicus" era organizado por mensagens a pé e a cavalo, dispostos em varias distâncias, nas estradas de comunicação, junto a repartições adrede (de propósito) construídas e ali se desenvolvia o serviço semelhantemente ao jogo de estafetas. 
               Na Europa, depois do ano 1000, após a queda do Império Romano e cessadas as invasões dos bárbaros, firmou-se, no campo postal, a iniciativa privada. 
                Carlos Magno,  por sua vez, tentara reviver o "Cursus Públicus" dos Romanos, mas sem consegui-lo. Assim, por iniciativa da Igreja, das Universidades e das Associações de Comércio e dos Mercadores, nasceu uma organização postal chamada "Serviço de Correios", financiada por particulares. 
               Justamente a uma família de empreendedores privados está ligada, desde essa época, a história deste serviço: os Tasso. Estes oriundos de Bérgamo, especializaram-se na criação de vários sistemas para a permuta de correspondência, conquistando, cada vez mais, fama e notoriedade, chegando até a obter a confiança do Imperador da Áustria, Maximiliano I (1459 - 1519), o qual lhes confiou a exclusividade do serviço em seus imensos domínios. 
         Um descendente dos Tasso, Francesco, uniu-se aos Torriani, outra família de empreendedores postais, formando, assim, a casta Torre-Tasso, que dominou, com sua magnífica organização, o correio em toda a Europa. 
              Também aos Torre-Tasso é devida a iniciativa de um serviço regular, entre Viena e Bruxelas, que estabeleceu as bases dos correios modernos, não só a serviço das autoridades militares, políticas e culturais, mas de todos. Além do transporte da correspondência, os Torre-Tasso iniciaram a expedição de valores; substituíram os postilhões pelos correios e introduziram o uso das diligências. 
             Infelizmente, com o advento das estradas de ferro e navios a vapor, esta grande organização se dissolveu, e alguns países, seguindo o exemplo de outros, entregaram à autoridade do Governo o controle e a iniciativa postal. 
           Desde quando foi introduzido o Serviço Postal à disposição dos particulares, o pagamento da taxa para o transporte e entrega de correspondência era calculado de maneira diferente, que variava em razão da distância, da dimensão e da forma da encomenda e até conforme o número de páginas expedidas. 
             Estas diversidades provocaram muitos inconveniente e, desde 1608, a "Compagnia di Corrieri della Signoria", que tinha a concessão do serviçonas linhas Veneza-Roma e Veneza-Milão, instituiu folhas timbradas, que podem ser consideradas precursoras dos selos. E o exemplo foi imitado, quase duzentos anos depois, pelo pequeno reino da Sardenha e pelo das duas Sicílias; poucos anos antes que o Inglês Rowland Hill, vendo uma jovem recusar uma carta, a fim de não pagar a taxa postal, alegando que não tinha dinheiro disponível. Hil ofereceu-se para pagar, mas a moça chamou-o de lado e disse-lhe, em segredo, que não tinha mais interesse em receber a carta, porque ela o o irmão se correspondiam mediante sinais preestabelecidos no próprio envelope e, portanto já sabia o que havia no seu interior. O inglês estudou o problema em seus mínimos detalhes e teve a ideia de mandar aplicar nas sobre-cartas, pelo remetente, pequenos retângulos de papel, correspondentes á taxa devida, com o que se eliminaram muitos inconvenientes   concebeu, e a seguir realizou, a ideia do selo postal. que está em uso até nossos dias. 
                 Naquela época, na Inglaterra, vigorava o sistema do pagamento de uma taxa postal, por parte do destinatário. 
               Após estudar bem o assunto, publicou-se num opúsculo, lançado à sua própria custa,  pelo inglês Hill em 1837. Naturalmente, não faltaram contraditores e polêmicas, mas a reforma, sobretudo pela tenacidade demonstrada pelo seu idealizador, dois anos depois, isto é, em 1839, foi aprovada e, no dia 6 de maio de 1840 foram oficialmente postos á venda os primeiros selos postais. Dentro em pouco, a inovação foi adotada em quase todos os países do mundo. É importante registrar que o Brasil e a Suíça foram os segundos países a adotar o selos. O nosso primeiro selo foi o famoso, e hoje raríssimo e caríssimo, "olho de Boi", assim chamado pelo seu formato. 
            
            No desenvolvimento desse serviço, muito temos a falar sobre os atos de heroísmo e sacrifícios de anônimos. Desde o pobre soldado, que tanto correu para anunciar aos atenienses  sua vitória dobre os Persas até tombar morto às portas da cidade, aos postilhões das intermináveis planícies das Américas, em perene luta contra os Índios  e salteadores de estradas, que não tinham nenhum respeito pela vida humana. 
               Na China,  conta Marco Polo, nem sempre eram conferidos privilégios e honrarias aos correiros; de um documento, datado de 1408, soubemos, realmente, como na França não podiam dormir pela estrada e eram obrigados a percorrer pelo menos cinco milhas por hora, no verão, e quatro no inverno; ao passo que aqueles a pé tinham a obrigação de percorrer, respectivamente de três a quatro milhas. E, para cada milha percorrida a menos, recebiam como castigo uma cacetada nas costas. 
               Outros carteiros eram verdadeiras agências postais ambulantes, obrigados a carregar às costas caixas de coleta, cestas, ou enormes pastas. Quando algum deles devia atravessar um rio, onde não havia ponte, as dificuldades eram enormes; além daqueles apetrechos, tinham que levar consigo grossas bexigas cheias de ar, para não correr o risco de se afogar durante o nado ou molhar a correspondência. 
                 Aqui no Brasil, é considerado como primeiro correio , ou o primeiro carteiro, Paulo Bregaro, que trouxe a correspondência enviada por D. Leopoldina ao seu marido D. Pedro I, que estava em São Paulo. Foi ao receber tais notícias que o nosso primeiro imperador, às margens do Ipiranga, proclamou a Independência. 
                Pelo interior do Brasil, onde havia o transporte de ônibus, estes faziam a ponte entre os diversos correiros. Quando não havia, este trabalho era feito por tropeiros ou viajantes confiáveis. 
                 Felizmente, os carteiros de hoje não são obrigados a arcar com tantas dificuldades, embora  muitos deles ainda tenham que percorrer mais de 25 ou 30 quilômetros diários a pé ou de bicicleta.
              O processo do Serviço postal acompanhou o da velocidade; uma carta que há cinquenta anos levava, digamos seis dias para ser entregue, hoje o é em poucas horas pelo sistema Sedex. Selos especiais demonstram a urgência solicitada e tais cartas são confiadas a portadores especiais, de bicicleta ou mesmo motorizados. 
              Em 1858, foi inaugurada em Londres a primeira instalação para a Carta Pneumática, baseada num sistema de tubos coligados às agências postais da cidade. Tal sistema ficou em vigor por muito tempo no Brasil, mas somente na Capital federal (Rio de Janeiro). Posteriormente tivemos a correspondência chamada "fono-postal", ou carta falada, que era gravada em cabinas especiais e remetida ao seu destinatário com a maior urgência possível.  Com o advento do Coreio Aéreo, as distâncias diminuíram bastante.  
                Depois tivemos outros sistemas de comunicação como o telégrafo e o telex. 
                Hoje o mundo está todo conectado pela internet  telefones e celulares, mas os correiros, ao invés de diminuir, aumentaram sua importância pelas compras feitas através da internet que dependem dos correiros para serem entregues aos destinatários.

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quarta-feira, 4 de março de 2020

ELSA, A LEOA DOMÉSTICA






A verdadeira história contada por Joy Adamson.
Do filme "A História de Elsa

O VERDADEIRO AMOR É AQUELE QUE LIBERTA. 

                A história de Ela começa num dia em que George, meu Marido, o mais antigo guarda caça da província setentrional do Quênia, na África, Oriental, estava em expedição na mata. Atacado por uma leoa desesperada, não lhe restou outro recurso senão abatê-la. Mas, quando examinou os despojos da magnífico animal, reparou em suas mamas cheias de leite, e compreendeu por que ela o havia atacado com tanta fúria e coragem; a fera defendia os filhotes. 
                Desolados, George e Nuru, nosso auxiliar-jardineiro somali, puseram-se a procurar os leõezinhos. Logo os descobriram, embolados sob um rochedo, e os trouxeram para casa. Eram fêmeas, com dois ou três dias, no máximo, três bolinhas de pelo malhado, que tentavam esconder a cara e evitar contato conosco. Seus olhos estavam ainda cobertos por um véu azulado. eu as pus no colo, para dar-lhes confiança. 
               Dois dias se passaram antes que nossas leoazinhas aceitassem qualquer alimento. Tentei todos os truques para fazê-las engolir um pouco de leite condensado sem assucar, mas consegui delas apenas um franzir  dos pequenos focinhos. "Hon-hon", protestavam, um pouco como nós próprios fazíamos na infância, antes de aprender a dizer polidamente "não, obrigado". No entanto, quando afinal aceitaram um pouco de leite, não houve mais maneiras de satisfazê-las, e, cada duas horas,era preciso aquecer as mamadeiras. 
                A mais franzina das três leoas era também a mais orgulhosa e esperta, e tornou-se logo a nossa favorita. Dei-lhe o nome de Elza, porque ela me lembrava uma pessoa desse nome
                 Nossas pequenas pensionista adaptaram-se rapidamente a sua nova residência. Seus olhos abriram-se em poucos tempo, mas elas não podiam ainda apreciar as distâncias, e frequentemente falhavam no procurar às apalpadelas os objetos. Para ajudá-las a vencer esta dificuldade, demos-lhes, a guisa de brinquedo, bolas de borracha e velhos pneumáticos. Qualquer coisa macia e flexível as encantava. Elas disputavam a câmara-de-ar, puxando-a com todas as forças, como num cabo-de-guerra. Ganha a batalha, a vencedora desfilava diante das outras com o troféu, a fim de provocar uma revanche. Se seu desafio não provocasse reação, ela depositava o objeto diante do nariz das rivais, fingindo deliberadamente ignorar que podiam roubá-lo. 
                A surpresa constituía o elemento mais importante de todos os seus jogos. Desde a mais tenra infância elas praticavam entre si (quando não era à nossas custas) a  caça de tocaia, manifestando por essa técnica dons inatos extraordinários. Atacavam sempre por trás; mantendo-se ocultas, achatavam-se contra o chão, rastejavam lentamente em direção à vítima desprevenida, e então, rápidas como o raio, lançavam-se ao ataque e aterrizavam no lombo da presa, que prendiam contra o solo com todo o seu peso. Quando éramos nós o objeto de tais agressões, fingíamos sempre ignorar o que se prepara; agachávamos gentilmente, olhando para outro lado, até o assalto final, o que encantava nossas "gatonas". 
                 À medida que tomavam consciência de sua força, tentavam tudo que se apresentava. Por exemplo, elas não podiam ver um todo de lona, por maior que fosse, sem puxá-los de todos os lados, e, resolvendo a questão de maneira tipicamente felina, embolavam-no afinal sob o corpo, arrastando-o entre as patas dianteiras, como haveriam de fazer mais tarde, em vida adulta, para transportar uma presa morta. 
               O brinquedo predileto delas era um saco de pano cheio de velhas câmaras-de-ar, que nós pendurávamos em um galho de árvore, onde ele ficava a balançar-se atraentemente. O saco  tinha presa uma corda, que puxávamos tão-logo as leoazinhas se agarravam a ele, o que as projetava no ar. Nossos risos tinham o dom de aumentar o vivo prazer que lhes causava esse jogo violento. 
           Nossas jovens feras eram também maravilhosas trepadoras; a coisa de que mais gostavam era de subir em árvores. 
               Com cinco meses de idade, nossas alunas estavam em esplêndida forma, e ficavam cada dia mais vigorosas. A grande afeição que tínhamos por elas não nos impedia de constatar que é impossível ter em casa três leoas em pleno crescimento. A contragosto decidimos confiar as duas menores ao zoológico de Roterdã, na Holanda, e guardar apenas a nossa favorita. 
                A partida de suas irmãs abalou Elsa. Dias a fio, com o olhar pedido na mata, ela as chamava. Seguía-nos em toda a parte, temendo, evidentemente, que nós também a abandonássemos. Para consolá-la permitimo-lhe entrar em casa. Ela chegava a deitar-se em nossa cama, e muitas vezes nos acordava lambendo-nos o rosto com a língua áspera. No entanto, não faltavam animais selvagens, em torno de  nossa casa, e Elsa cedo fez conhecimento com todos. Ela ignorava o medo, e era perfeitamente capaz de atacar sozinha uma manada de elefantes. As girafas eram igualmente um grande motivo de divertimento. Um belo dia, tremendo de excitação, o corpo achado contra o solo, ela pô-se de tocaia e avançou cautelosamente. Com os longos pescoços displicentemente arqueados, as girafas não prestavam a menor atenção a suas manobras. "Por que", parecia ela dizer, "vocês ficam aí plantadas como bobas, ao invés d entrar no jogo?" Mas, em certa ocasião, parece que ela imaginou que nós, ficando lá a espiá-la, é que tínhamos feito falhar sua tocaia, porque se lançou colericamente sobre nós e nos derrubou! 
                A alimentação de Elsa consistia,desde essa época, quase exclusivamente de carne crua. Depois das refeições, ela geralmente estendia-se numa cama de campanha para tirar uma soneca. 
              A leoa crescia. Tinha agora quase dois anos, e estava ficando adulta. Sua voz quebrava-se às vezes num rugido rouco, profundo, o pelame tinha adquirido um pronunciado lustro fulvo, e acontecia ela deixar-nos por dois ou três dias. Nós sabíamos então que ela tinha ido encontrar outros leões. Mas era a nós que ela voltava sempre, em busca de comida. Permanecíamos "seu grupo", e nosso lar era seu. 
             É claro que tínhamos sempre sabido que não poderíamos guardar indefinidamente Elsa. Nossa primeira ideia fora enviá-la para juntar-se às irmãs no zoológico de Roterdã, mas suas últimas escapadas levaram-nos a modificar nossos projetos. Dado que ela parecia tão bem adaptada à selva, e que os animais selvagens admitiam sua presença, ela nos parecia poder ser a exceção que confirma a regra. Diz-se, com efeito, que um animal criado e cuidado pelo homem é sempre repelido pelos seus congêneres por causa de seu odor humano. 
             Se pudéssemos restituir nossa amiga à sua espécie, evita-lhe-íamos uma vida de cativeiro que a privaria de tudo que lhe reserva normalmente a natureza. Decidimos, portanto, levar Elsa a uma região rica de caça, passar aí com ela duas ou três semanas, para ensinar-lhe a prover por si mesma suas necessidades, e só então, se tudo se passasse como esperávamos, abandoná-la, tanto para seu bem como para o nosso, à vida selvagem. 
               Logo que chegamos ao lugar escolhido, tiramos de Elsa a coleira, para mostrar-lhe que, doravante, ela era livre. Elsa trepou de um salto para o teto do Land Rover e partimos em exploração. 
                 Um dia, surpreendemos um jovem e soberbo leão devorando a carcaça de uma zebra. Eis o marido ideal para Elsa, pensamos nós. Ele pareceu um pouco espantado por ver uma leoa instalada sobre o teto de um veículo. Mas havia comido carne fresca até fartar-se e não fez nenhuma objeção a dividir sua presa com a visitante, que saltou  do teto e precipitou-se gulosamente sobre a carcaça. Agindo da maneira mais sub-reptícia do mundo, fugimos a toda a velocidade, deixando-a em tête-a-tête com o leão. 
               Na manhã seguinte, partimos bem cedinho para visitá-la, na esperança de descobrir um casal feliz. Mas ai! a pobre Elsa, sozinha, esperava-nos no mesmo lugar onde a havíamos deixado. Ela manifestou uma alegria transbordante quando nos viu, lambeu-me as mãos com frenesi, e colou-se a mim. 
                Visivelmente, ela ainda dependia muito de nós. Alguns dias mais tarde, escolhemos um novo território, um belo lugar atravessado por um rio onde muitos animais selvagens vinham beber. 
                Elsa tinha sido ensinada a trazer a caça que matávamos. Mas, até então, nós lhe tínhamos sempre dado a carne previamente cortada. Assim, nós não tínhamos certeza de que ela saberia lidar, em plena natureza, com o cadáver de uma presa. Ficamos ao mesmo tempo surpresos e felizes ao descobrir a firmeza do seu instinto, neste particular. No entanto, ela nunca tinha caçado por conta própria. Nossa permanência à beira do rio durou o tempo suficiente para que Elsa aprendesse por si própria o que sua mãe lhe teria ensinado. A princípio, nós fomos obrigados a matar para ela, mas logo aprendeu a fazê-lo sozinha. Quando todas as condições nos pareceram afinal reunidas para que Elsa se pudesse safar sem nós, tomamos a resolução de deixá-la por oito dias.
              Enquanto fazíamos as malas, Elsa nos observava como se farejasse na atmosfera alguma coisa insólita.  
           Nós nos tínhamos habituado à ideia dessa separação razoável, indispensável, e esperávamos que mela valesse a  Elsa um futuro mais feliz, de acordo com as leis da natureza. Apesar disso, no momento de romper o último vínculo, tínhamos, meu marido e eu, o coração bem pesado. 
                 Percorremos 15 quilômetros de jipe até outro rio, às margens do qual acampamos durante uma semana. À tarde, durante meus passeios, sentia a falta de Elsa a meu lado. Ela não vinha mais esfregar a cabeça em mim, e eu tinha saudade da maciez de seu pelo e do calor de seu corpo. 
                A semana acabou-se, afinal, e voltamos a nosso primeiro acampamento, para ver somo a leoa tinha suportado a prova. Logo que chegamos, procuramos pelas pegadas, mas não as achamos. Chamei-a. Pouco depois, ouvimos seu "rong-rong" familiar, e vimo-la vir, correndo a toda velocidade  pela margem do rio. Sua acolhida provou-nos que a falta que havia sentido de nós fora tão grande quanto a nossa saudade dela. 
                   Enquanto as tendas eram erguidas, conduzi-a à margem do rio, onde repousamos juntas. Eu estava tranquila, porque sentia que o futuro dela estava assegurado. Seus sentimentos deviam ser idênticos, já que pôs sobre mim sua grande pata macia e adormeceu mansamente. 
                 À tarde, ela se foi. Ao fim de alguns dias, decidimos levantar acampamento. Na última manhã, vimo-la com o binóculo, trepada no seu rochedo favorito. Aproximamo-nos, mais, embora reagisse a nossas chamadas, não se moveu do lugar. 
                  Se ela pudesse falar, não teria maneira mais clara e comovente de exprimir seu desejo de permanecer solitária.
                 Quando os dois veículos de nossa excursão passaram sob o rochedo, a silhueta de Elsa de destacava contra o céu. Ela seguiu-nos longamente com o olhar. 
                  Depois dessa separação, visitamos Elsa a cada dois ou três meses. Ela parecia sempre feliz de nos ver. As carícias e "miaus" com que nos acolhia tocavam-nos profundamente. Mas, evidentemente, não tinha mais necessidade alguma de nós. 
              Não foi com o coração alegre que nos separamos de Elsa, mas para devolvê-la à liberdade. No entanto, tínhamos sempre esperado que ela acharia um marido e que um dia a veríamos chegar em nosso acampamento seguida de toda a sua família. Imaginem qual foi nossa alegria quando, alguns meses após, Elsa atravessou o rio a nado para juntar-se a nós. Nossa leoa favorita estava acompanhada de três magníficos leõezinhos. 
              Ela voltou à mata, mas nos trazia frequentemente os filhotes em visita. Eles aprenderam a apreciar a maior parte das brincadeiras de que gostava sua mãe quando era criança. 
                      Mas ai! em janeiro de 1961, Elsa caiu doente e morreu tranquilamente, em nossa casa. Depois de sua morte, os filhotes deram-se ao mau hábito de atacar o cago e as cabras dos indígenas. Para não ter que abater a família de Elsa, capturamos os leõezinhos. Prendemo-los em grandes caixas com respiradouros e atravessamos cerca de trezentos quilômetros de savana para soltá-los no Parque Nacional de Serengeti, na Tanzânia, onde vivem agora felizes em liberdade. 

Tudo indica que os leões serrão extintos da face da terra. Há 50 anos havia cerca de 450 mil leões; hoje só exite 15 mil. 
O ser humano é o pior dos animais que a natureza criou. Com o desenvolvimento do cérebro, dominou todos os outros animais da terra e já exterminou a maioria deles;  em 15 anos terá atingido a absurda cifra de 8 bilhões de pessoas. Ocupam todos os espaços disponíveis e não se preocupam com a fauna e o meio ambiente. Procriam como coelhos e não tem predadores. Somente a própria natureza poderá contê-los. 
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quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

CONHECENDO O TIBETE



                Deste os tempos do rei Ptolomeu do Egito, tinham-se vagas notícias de terras distantes e inacessíveis no coração do continente asiático. Algumas noções mais pormenorizadas surgiram ainda na Idade Média, graças a alguns europeus, que viajaram através da Mongólia, entre eles o veneziano Marco Polo, que mencionou o Tibete em seu livro "O milhão". Também podemos citar João da Pian del Carpine, um dos primeiros companheiros de São Francisco de Assis e fecundíssimo pregador, que foi enviado às terras asiáticas para ali difundir a religião de Cristo e chegou até à corte Grã-Cã dos Tártaros, onde teve oportunidade de conhecer, embora superficialmente, a religião tibetana. Mas o primeiro europeu que penetrou no interior do Tibete foi Odorico de Pordenone, lá pelo ano  1300. Desde essa época, somente no século XVII, e exatamente no ano de 1631, os europeus, (jesuítas e franciscanos) puderam penetrar novamente no Tibete, naquele interminável planalto de cerca de 2.600 quilômetros de comprimento por 1.300 de largura. 
              Circundando e sulcando por cadeias de montanhas orientadas na direção dos paralelos terrestres, imensas rugas da crosta terrestre, encimadas por geleiras colossais, das quais a mais comprida é a de Siacen que mede nada menos que 75 quilômetros, no coração asiático, mais precisamente no norte da península indiana. Ali estende-se longinquamente a mais vertiginosa cadeia de montanhas do mundo, o Himalaia, que se eleva a quase 9.000 metros com o pico do Everest (8.860 m), somente há poucos anos atingido, pela primeira vez, por outras criaturas humanas. Além daquela imensa cadeia montanhosa, encontra-se o mais imponente sistema de terras altas do mundo, ou seja, o planalto do Tibete, que se limita com a Índia, China e Rússia, e cuja elevação média beira os 5.000 metros acima do nível do mar. 
                O nome Tibete parece que deriva do árabe Tibat ou Tolbat, proveniente, por sua vez, da antiga denominação chinesa Tu-pat ou Tu-pang. No entanto, os tibetanos chamam seu país de Bad.
                Chamado poeticamente pelos indígenas como "país das neves" e também conhecido como Telhado do Mundo, ou seja, o limite entre o passageiro e o eterno, entre o humano e o sobrenatural; e realmente emana daquela imponente paisagem, que supera toda e qualquer imaginação de solenidade e majestosa grandeza. Um lugar onde os peregrinos religiosos têm o sentimento de proximidade com Deus, de uma passagem da caduca fraqueza humana para o "eterno poder do criador". 
                 No planalto, assolado por tempestades e percorrido por gélidos ventos, a temperatura chega, no inverno, até 40º C abaixo de zero, embora se conservando, em média, nessa estação, a 15º C abaixo de zero. Nas estações mais quentes, atinge, excepcionalmente, 25 graus acima de zero, mas, ao cair da noite, quase sempre cai novamente a zero. 
               Uma ralíssima vegetação brota nesse terreno rochoso ou coberto de calhaus, devido à desagregação de alguma rochas; e somente em certas zonas protegidas da ventania, por mérito das altas montanhas marginais, uma ou outra planta pode resistir e viver. A falta da necessária irrigação contribui para tornar mais difícil a vida dos vegetais, ainda mais porque os numerosos lagos que se acham na região são todos de água salgada e muitas das nascentes constituídas de água quente, o que é muito curioso. Apesar desse obstáculos, nessa área de 1.204.320 quilômetros quadrados, que se diria não poder abrigar as débeis criaturas humanas, vive uma população de cerca de 3 milhões, que uma atávica adaptação às condições mesológicas ou um singular e corajoso esforço de ambientação torna-se alegres e serenas, mesmo em meio a provação e às lutas impostas pela natureza hostil. Onde as condições de clima se demonstram melhores, e relativamente mais propícias, surgiram aldeias e pequenas cidades; a população se tornou mais sedentária e entrega-se ao cultivo de dificultosas plantações e pequenas hortas. Nos vales protegidos das terríveis monções e relativamente cálidos, conseguem-se obter até árvores frutíferas, tais como maçãs, nozes, pêssegos e damascos. Entre os cereais, destaca-se a cevada, mas também é cultivado o fermento, o trigo sarraceno e o milho. Tudo isso parece inacreditável num local tão difícil. 
                Um quinto da população, ao invés, vive em estado nômade, exercitando o pastoreio; mas reina, ali, uma condição de notável penúria, um nível muito baixo de vida, e as regras da higiene são quase inexistentes. 
                A população é do tipo mongólico, possui tez morena, mais clara sobre o tórax. São homens pequenos, de cabelos negros, rígidos e retos, olhos também negros; somente em alguns casos parecem estranhos, mas que se encontram apenas nos anciões, as pupilas possuem uma cor cinza-esverdeada. Uma barba muito rala ornamenta-lhes os rostros, sempre risonhos, e cabeleira igualmente pouco abundante, e usada comprida, também pelos homens, que a prendem em rabicho, sobre a nuca. As mulheres, ao contrário, separam os cabelos em número infinito de tranças, que prendem depois ao "pegu", espécie de gancho suporte, grande arco enfeitado de corais, turquesas e, nas mais ricas, com pérolas. Trata-se de amplo e complicado ornamento, que constitui o objeto mais singular de atrativo feminino e cuja riqueza é completada pelos anéis, brincos, quase sempre formados de um aro de ouro ou de prata, tendo ao centro uma turquesa. Os homens também usam brincos, ou melhor, um só brinco, precisamente no lóbulo da orelha esquerda. 
              O ouro e a prata não são   escassos na região, mas são extraídos ainda por processos rudimentares, de acordo com as possibilidades de um povo cuja natureza de terreno e o isolamento por este provocado deixam-nos ainda bem para trás, na escala da civilização, ainda que os recursos naturais pudessem, ao invés, torná-los mais ricos para gozo de bem-estar. 
              E não é somente o homem que, no Tibete, luta contra as asperezas e as intempéries. Muitas variedades de animais lhe compartilham a dura vida. Alguns maus úteis, outros menos. Inúmeros realmente lhes são nocivos como, por exemplo, o tigre com o qual se adaptou e que, embora apresente vários exemplares, acrescenta a insídia de sua ferocidade àquelas já numerosíssimas que possui e que exigem cuidado, quanto ao clima, as avalanchas, as tempestades. Menos feroz, e mais numeroso do que os tigres, outro felino habita as desertas planícies do Tibete;  é o lince, animal de porte regular, com espesso pelo acinzentado e manchas negras; e ainda, veados de toque, carneiros selvagens, gazelas, antílopes e macacos. Alguns animais são realmente úteis aos tibetanos, como o almiscareiro (moschus muschiferus), espécie de ruminante de um metro de comprimento e meio de altura, que vive em grandes altitudes e Fornece, em seus exemplares masculinos, uma substância odorosa, o "almiscar", que os tibetanos exportam. Há ainda, os minúsculos cavalos, chamados nones, conhecidos em todo o mundo, habilíssimos em grimpar pelos íngremes atalhos, onde, sem seu auxílio, o homem jamais poderia passar. Montados nesse cavalinhos, os Tibetanos disputam suas partidas de polo, esporte hoje tornado célebre e praticado em toda parte. 
                Realmente providencial para os habitantes do Tibete é o iaque, espécie de boi negro e anão, que vive tanto no estado selvagem como doméstico, e tão útil que seu próprio excremento é aproveitado como combustível, após seco. Também este é animal de grandes altitudes, pois, na verdade, não é encontrado nunca abaixo de dois mil metros e oferece, aos Tibetanos, alimento, como seu leite e carne, agasalhado, com a lã tecida com seu espesso pelo, e habitação, porque as tendas dos nômades são feitas justamente com peles desse animal. É aproveitado, ainda, no trabalho, porque se adapta docilmente a puxar arado; serve para carga, porque as lentas e intermináveis caravanas transportam, duas vezes por ano, até aos mercados limítrofes da China e serve, outrossim, de cavalgadura paciente e robusta. 
                As caravanas tibetanas se enriquecem, porém, de mais outros animais de carga, não usados em outros climas para tal fim. São os carneiros que, conduzindo pequenas cangalhas, transportam o sal mineral, de que é riquíssimo e planalto, até aos mercados chineses, onde serão tosquiados, e sua  lã logo vendida, ali mesmo. Em troca dos produtos que trouxeram de seu gélido país, os Tibetanos adquirem, nesses mercados, seda, tabaco, armas e diversas bugigangas. A simplicidade e escassez da sua alimentação (carne de iaque e carneiro, farinha de cevada, de fermento ou de milho, simplesmente embebida de água,é compensada pelos Tibetanos por uma quantidade notável, até dez por dia, de taças de chá, que é uma espécie de monopólio, mas não um chá como o que estamos habituados a tomar;é uma bebida, ao invés, extraída de longa fervura de folhas finalmente trituradas e à qual ajuntam bastante manteiga e sal. É talvez desta mistura que os Tibetanos auferem a energia necessária para viver e trabalhar num clima tão hostil. Ou talvez sejam auxiliados pelo "cian", licor obtido da fermentação de cevada e pouco alcoólico, do qual são gulosíssimos. 
                A uniformidade dos trajes entre homens e mulheres deriva, quiçá, da necessidade de bem se protegerem dos rigores do frio, necessidade que os faz deixar de lado qualquer preocupação de ordem estética. Nos "ciuba" usados pelas mulheres, o longo casaco de lã bruta, vermelho escuro, sua rusticidade está suavizada por desenhos tecidos em cruz, de vários matizes. Uma faixa de lã ou de seda lhes cinge a cintura e quase sempre de sob os casacos despontam as calças, meio compridas, tanto para os homens como para as mulheres. As altas botas, de couro de iaque ou de tela escarlate, apresentam<às vezes, a singularidade de dividir os vários dedos dos pés, assim como as nossas luvas separam os das mãos. Os chapéus masculinos são uma espécie de gorro, mas quase sempre enriquecidos, aos lados, com duas grandes abas, que são baixadas quando o gelo se demonstra muito forte. 
              Nos cumes mais altos e inacessíveis, sobre as mais resplandescentes geleiras, os Tibetanos situaram a sede de suas divindades, seja atualmente, quando professam o lamaísmo, religião muito semelhante ao budismo, e deste deriva, seja quando, em séculos distantes, professavam a religião bonpo. Em cada passagem, é crença que ali seja a morada de um espírito protetor, os caravaneiros deixam, como agradecimento, farrapos de roupa ou pedras, e recitam fórmulas de preces. Segundo a tradição religiosa, o centro do mundo está situado exatamente no monte Kailasa, de cerca de 7.000 metros de altura, e considerado, pelos Tibetanos, como a mais alta manifestação divina. Eles o denominam Pilar do Céu  ou Joia de Gelo.
                  Nos templos estão guardados muitos ídolos´ preciosíssimos, que representam as inúmeras divindades e os espíritos protetores. Diante deles, os Tibetanos recitam fórmulas e preces. Cumbum, templo de Chianzé, com 100 mil imagens. A ciclópica construção, de maravilhosa arquitetura, está enfeitada por belas e vivazes pinturas. 
              No Tibete, pontificam a superstição e o fanatismo religioso, mantidos sempre vivos pelos feiticeiros, que deles auferem grandes vantagens. Alguns feiticeiros sempre dançam disfarçados com horríveis e enormes máscaras que muito impressionam os fiéis. 
             Cada ano, caravanas intermináveis giram vagarosamente pela base do monte , por uma vereda natural, que parece cavada para isso, para a lenta marcha dos peregrinos, que avançam rezando. Mas é uma estranha maneira de orar, essa dos Tibetanos. Muitas vezes, eles se contentam em confiar suas orações, escritas em papel, a certos cilindros, a que chamam moinhos das rezas, que são girados a mão. As palavras da oração, ao se desenrolarem os rolos, sobem ao céu, sem que o crente tenha sequer o trabalho de ler as fórmulas. Algumas orações estão escritas em folhas de papel presas a altos cajados, fincados nas proximidades das casas, de modo que  o vento, fazendo tremular as bandeiras, obtém o fim desejado, ou seja, expulsar os espíritos adversos. Não é este, porém, no Tibete, um modo lícito de aproximar-se das divindades, porque, o verdadeiro, o empregam amplamente os próprios lamas, os sacerdotes de cabeça completamente raspada. 
                  O título lama significa mestre e modelo de santidade, mas é usado, no Tibete, por qualquer sacerdote. Grande é o número desses lamas, pois toda a família tibetana ambiciona ter um, em seus conventos, que são frequentemente enriquecidos com pinturas antigas e preciosos manuscritos. Há lamas de duas diferentes seitas, aqueles de gorro amarelo e aqueles de gorro vermelho. Os "amarelos", aos quais pertence o Grã lama, (Dalai Lama) ou chefe supremo da religião, são os prosélitos de uma reforma assaz recente. os "vermelhos", ao invés, são os adeptos da tradição antiga, mas como os Tibetanos acreditam na reencarnação das almas, quando morre o Grã lama, vão logo em busca de uma criança nascida no mesmo instante em que ocorreu o passamento, e, se o recém-nascido corresponde a certos outros requisitos e sinais desejados, é logo levado para a cidade santa, Lassa, que é a capital política e espiritual do Tibete, e criado naquele grandioso convento, onde o adotaram como uma divindade viva. E ele se torna, então, para toda a vida, o chefe supremo do Tibete, embora o povo não possa subtrair-se á influência e domínio dos Chineses. 
             Superstição e fatalismo tornam vantajosa a posição dos feiticeiros, que são consultados, sempre, em qualquer ocasião. Nos casamentos, para saber se o destino dos noivos é reciprocamente conveniente; nas enfermidades, para saber se o doente se restabelecerá. E quando o parecer do feiticeiro é desfavorável, o doente é entregue, com indiferença, ao seu destino. Caso morra, sendo rico, é cremado em cerimônia, mas se for pobre, e não pode pagar o luxo de uma fogueira, seu corpo é entregue para alimentação dos animais selvagens que abundam nas redondezas dos cemitérios. 
               Misto de ingênuas superstições e de adoração ao eterno príncipe criador, é o lamaísmo que comporta danças de lamas, disfarçados nas horríveis máscaras e, ao mesmo tempo surgem também como ioques, repletos de misterioso poder, dominando a vida material; poder ante o qual ficamos perplexos e espantados, só em pensar nesse ascético e espiritual recolhimento, que domina o espírito quase infantil de certas crenças realmente bárbaras e absurdas. Basta imaginar que, entre os Tibetanos, mesmo estando em vigor a monogamia e a poligamia, regra que impões à  mulher casada a obrigação de viver não só com o homem que a desposou, mas igualmente com todos os irmãos deles. 
              Rcio e belíssimo é o convento, que surge em lassa, cidade e carca de cem mil habitantes, em sua maioria lamas; mas existem, ainda, no Tibete, outros templos de maravilhosa arquitetura que, infelizmente estão em ruínas devido à incúria e abandono, como é o caso do templo de Cumbum ( o nome quer dizer literalmente templo das 100 mil imagens; sua ciclópica construção recorda em seu estilo os cumes e a projeção das montanhas para o céu, em suas majestosas agulhas. No entanto, os mosteiros não são as únicas construções religiosas tibetanas. Muito menores, mas também muito mais numerosos são os ciroten, que conservam relíquias e livros sagrados. Junto ao templo de Toling, contam-se centenas e oito deles, que é o número simbólico para o lamaísmo. 
               Também as habitações estão encastoadas nos íngremes declives, seguindo e, juntas, desafiando o ríspido flanco das montanhas. O material que forma as casas consta de blocos de barro, misturado a ramos (tipo pau-a-pique) secados ao sol; as janelas acham-se situadas bem ao alto, quase junto ao telhado, que é todo circundado de uma barra vermelha contra o mau olhado, assim como enfeitados de vermelho, de trapos de lã, se encontram os arados puxados pelos iaques. 

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terça-feira, 24 de dezembro de 2019

A HISTÓRIA DA MORALIDADE SEXUAL

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Neste espaço vamos procurar compreender como são as "relações pré-maritais, a castidade, a virgindade, a moral dupla, a prostituição, a relatividade da moral, o adultério, o papel biológico do pudor, o divórcio, o aborto, o infanticídio, a infância e o indivíduo. 

            O maior trabalho da moral sempre foi a regulação sexual, porque o instinto reprodutor cria problemas não só dentro do casamento, como antes e depois dele; e a cada instante ameaça perturbar a ordem social com sua persistência, a sua intensidade, o seu desprezo à lei e as suas perversões. O primeiro destes problemas diz respeito às relações pré-maritais - devem ser livres ou restritas? Mesmo entre os animais o sexo não é completamente livre; a rejeição do macho por parte da fêmea, exceto nos períodos do cio, reduz o sexo a um papel muito mais modesto do que tem ele em nossa espécie. Como disse Beaumarchais, o homem difere do animal por comer sem ter fome, beber sem ter sede e fazer amor em todas as estações do ano. Entre os povos primitivos encontramos algo análogo às restrições animais no tabu da mulher durante o período menstrual. Fora daí, o intercurso pré-marital é quase sempre livre, nas sociedades mais simples. Entre os índios norte-americanos e também algumas tribos brasileiras, os jovens uniam-se livremente, sem que mais tarde esse fato constituísse impedimento para o matrimônio. Entre os "papuas" a vida sexual começava muito cedo e a promiscuidade pré-marital era regra. A mesma coisa acontecia entre os "soyots" da Sibéria, os "igorots" das Filipinas, os nativos da "Alta Burna", os "cafres e boxinames" da África, as tribos da Nigéria e da Uganda, da Nova Geórgia, das ilhas Murray, das Andamanes, do Taiti, da Polinésia, do Assam, etc. 
              Sob tal regime não seria de esperar muita prostituição. A "mais velha das profissões", portanto, é relativamente nova; só aparece com a civilização, com o advento da propriedade e o desaparecimento da liberdade pré-marital. Aqui e ali encontramos jovens que se vendem por algum tempo a fim de reunir dote, ou levantar fundos para templos religiosos e outras instituições associativas; mas isto só ocorre onde o código moral aprova, como um piedoso sacrifício para ajudar os pais pobres ou os imaginários "deuses famintos". 
              A castidade vem depois. O que a moça primitiva mais temia não era a perda da virgindade, mas sim adquirir a fama de estéril; com frequência a aprendiz pré-marital constituía uma ajuda, em vez de um embaraço para o casamento, porque provava a fecundidade da mulher. Antes do advento da propriedade as tribos mais simples tinham em má conta a virgindade, achando-a indicativa de impopularidade (uma mulher desinteressante e não desejada). O noivo kamchadal que na noite de núpcias encontrava a sua noiva virgem, enfurecia-se, e insultava-lhe a mãe pela maneira negligente com que educara a filha. Em muitos lugares a virgindade era considerada como barreira para o casamento, porque punha a cargo do noivo a detestável tarefa de violar o tabu que lhe proibia derramar o sangue da tribo. Às vezes a moça se oferecia a um estrangeiro desconhecido, como meio de livrar-se desse tabu; outras se violavam de maneira artificial, geralmente com algum legume assemelhado ao falo. No Tibete as mães ansiosamente procuravam um homem que lhes pudesse deflorar as filhas; no Malabar as moças cercavam nas estradas os passantes e lhes pediam o grande favor, porque "enquanto fossem virgens não conseguiriam casamento". Em algumas tribos a noiva era obrigada, no dia do casamento, a dar-se aos hóspedes vindos à festa, antes de entregar-se ao marido; em outras o noivo contratava um homem para lhe desvirginar a noiva; entre certas tribos das Filipinas havia um funcionário público, muito bem pago, incumbido de poupar aos noivos esse incômodo. 
             Mas, afinal, o que foi que transformou a virgindade, dum defeito que era, em virtude, e tanto a elevou nos códigos morais das altas civilizações? Indubitavelmente, a instituição da propriedade. A castidade pré-marital apareceu como extensão às filhas do sentimento de propriedade com que o macho patriarcal olhava para sua mulher. A valorização da virgindade sobreveio quando, no casamento por compra, a noiva virgem começou a alcançar melhor preço que a não virgem; trazia um atestado referente ao seu passado e uma promessa da fidelidade marital, agora tão cara para os homens receosos de que seus bens se fossem para filhos "sub-reptícios" (gerado às escondias por outros machos). 
             Os homens nunca pensaram em aplicar estas restrições a si mesmos; não aparece na história nenhuma sociedade estabelecendo a castidade pré-marital do macho;  língua nenhuma ainda cunhou a palavra designativa do "homem virgem", a não ser publicitariamente. A aura virginal reservava-se unicamente apara as moças. Os tuaregues puniam com a morte a irregularidade; os negros da Núbia, da Abissínia, da Somália, etc.,  praticavam nas meninas a cruel arte de infibulação, isto é, a colocação de um anel nas partes genitais, de modo a impedir a cópula; em Bruma e no Sião essa pratica subsistiu até nossos dias. Formas de separação surgiram, por meio das quais as meninas eram impedidas de ser tentadas. Na Nova Bretanha os pais ricos confinavam as filhas, durante os cinco anos considerados mais perigosos, em cabanas guardadas por velhos negros; dali não podiam sair e só os parentes as visitavam. Algumas tribos de Bornéu também guardavam as moças solteiras em rigoroso confinamento.  Destes primitivos costumes ao purdah dos muçulmanos e hindus, só vai um passo - o que mostra quão perto da selvageria está a atual civilização. 
                O pudor sobrevêm com a virgindade e o patriarcado. Ainda hoje muitas tribos em que não há o menor vexame na exposição do corpo nu; mas envergonham-se de usar roupas. A África inteira não se cansou de rir quando Livingstone pediu aos negros que o hospedavam para porem alguma tanga por ocasião da vinda de madame Livingstone. A rainha de Balonda apresentou-se completamente nua ao receber esse explorador. Em certo número de tribos, os pares copulavam publicamente, sem o menor pensamento de vergonha. 
                No começo o pudor é para a mulher o sentimento de que ela é tabu nos seus períodos menstruais. Quando surge o casamento por compra e a virgindade das filhas começa a dar lucro aos pais, a separação e a compulsão à virgindade começam a criar nas meninas o senso do dever de castidade. De novo o pudor mostra-se como sentimento na mulher que, comprada, sente-se em obrigação financeira para com o marido, e refreia-se de gratuitas relações sexuais com outros. É nesse ponto que surge o vestuário, caso ainda não aconteça por proteção do corpo contra perigos e intempéries; em muitas tribos as mulheres só passam a andar vestidas depois do casamento, como sinal de seu estado e como meio de afastar a galanteria; o homem primitivo não concorda com o dizer de Anatole France, que é cobrir o corpo que produz a luxúria. A castidade, entretanto, não revela nenhuma necessária relação com a roupa; contam alguns viajantes que na África a moral varia em razão inversa à quantidade de roupas. É claro que o que envergonha os homens depende unicamente dos tabus e costumes locais do grupo. Até recentemente a chinesa envergonhava-se de mostrar os pés; a mulher árabe, de mostrar o rosto; e a tuaregue (no sul da Líbia) de mostrar a boca; mas as antigas egípcias, as hindus do século 19 e as mulheres de Bali do século 20 (antes de ardentes turistas começarem a aparecer por lá), nunca sentiram a menor vergonha em andar com os seios à mostra. Elas foram a grande inspiração do pintor francês Gauguin. 
               Não devemos concluir que a moral perde o valor pelo fato de assim variar no tempo e no espaço, e que seria revelação de nossa cultura em história, o desembaraçar-nos dos costumes morais do grupo em que vivemos. Antropologia em doses muito pequenas é coisa perigosa. Não há a menor dúvida que a moralidade, como diz Anatole France, "é a soma dos preconceitos dum grupo"; e que, como disse o grego "Anacarsis", se fôssemos juntar todos os costumes considerados sagrados em algum grupo, e depois retirar dele tudo quanto fosse considerado imoral em outro, nada restaria deles. Mas isto não prova a desvalia moral; só prova de quantas maneiras diferentes pode a ordem social ser preservada. Essa ordem é indispensável à vida dos grupos; não há jogo que possa ser conduzido sem regras; o homem necessita saber o que lhe pode vir de outro, nas circunstâncias ordinárias da vida. Daí a unanimidade com que os membros duma sociedade praticam o código moral, coisa tão importante como o conteúdo desse código. Nossa heroica rejeição dos costumes e da moral da nossa tribo, quando na adolescência descobrimos a relatividade moral, apenas revela imaturidade de julgamento; com o passar de décadas e aquisição de mais sabedoria, deixamos de lado muitos preconceitos do código moral que condenávamos, pois que ele consolida a experiência de gerações anteriores. Cedo ou tarde nos vem a percepção de que mesmo o que é para nós incompreensível pode ser verdadeiro. As instituições, convenções, costumes e leis que formam a completa estrutura duma sociedade provém do trabalho de centenas de séculos e de milhões de espíritos; um só espírito não pode esperar compreendê-lo durante apenas uma vida, e muito menos aos vinte anos de idade. Temos de concluir que a moral é relativa, mas indispensável para a vida em sociedade. 
              Desde que os velhos costumes básicos representam a seleção duma série de modos de agir durante séculos de experiência e erro, podemos esperar descobrir alguma utilidade social, ou valor de sobrevivência tanto na virgindade como no pudor, a despeito da histórica relatividade dessas instituições, da sua associação ao casamento por compra e das suas contribuições para as neuroses. O pudor era a retirada estratégica que permitia à moça melhor escolha de um companheiro, ou o forçava a mostrar-lhe as suas mais belas qualidades antes de vencê-la; os embaraços que o pudor levanta contra o desejo do homem geram aqueles sentimentos de amor romântico que levam a mulher aos seus olhos. A orientação impositiva da virgindade destruiu a naturalidade da primitiva vida sexual; mas, com o diminuir da precocidade do sexo e a maternidade muito prematura, diminuiu também o espaço entre a maturidade sexual e a economia. Provavelmente serviu para fortalecer o indivíduo no físico e no mental, prolongando a adolescência e a educação, e desse modo elevando o nível da raça. 
              À medida que a instituição da propriedade se desenvolveu, o adultério foi passando de "pecado venial a pecado mortal", para lembrarmos de textos religiosos. As religiões aproveitaram-se desses sentimentos primitivos e os incutiram em suas regras à sua maneira. Metade dos povos primitivos não lhe atribuíam nenhuma importância. Mas o surto da propriedade não só levou à exigência da completa fidelidade feminina, como gerou no homem o senso de domínio em relação à esposa; mesmo quando o marido emprestava a esposa a um hóspede, costume muito comum entre os esquimós, o que vemos é o uso dum ser que lhe pertence de maneira absoluta e absurda. O costume do suttee (comunidades hindus) veio completar esta concepção; a mulher era sacrificada e enterrada no túmulo do marido, com todos os pertences deste. Durante o regime do patriarcado o adultério equiparou-se ao furto; equivaleria hoje à infração duma patente registrada. O castigo variava de grau, indo da indiferença, nas tribos mais simples, ao estripamento, observado em certas tribos da Califórnia, ou apedrejamento da adultera, hediondo costume entre árabes. Após séculos de punição, a nova virtude da fidelidade da esposa estabeleceu-se firmemente e gerou uma consciência no coração feminino. Muitas tribos de índios surpreenderam os conquistadores por considerar irrepreensível a conduta das esposas; e certos viajantes lamentavam que as mulheres da Europa e da América não possam se igualar em fidelidade marital as da Papuásia e da Zululândia (Reino Zulu). 
             Essa fidelidade era mais fácil para os Papuas, desde que entre suas tribos, como na maioria dos povos primitivos, poucos embaraços se levantavam contras o divórcio. As uniões raramente iam além de poucos anos, entre os índios da América. "Grande número de homens velhos ou maduros", diz Schoolcraft, "contam das muitas mulheres que tiveram, e dos muitos filhos espalhados pelo mundo, que lhes são desconhecidos". (esses realmente levaram à sério a ordem divina de "crescei e multiplicai")  Ele se riem dos europeus por terem uma só mulher, e por toda vida; acreditam que o "Espírito Bom" os formou para serem felizes e não para permanecerem amarrados, salvo aos que o desejem por força da congenialidade. Os índios cherokees mudavam de mulher três ou quatro vezes por ano; os somoanos (de Samoa) eram bastante conservadores, trocavam de mulheres de três em três anos, em média. Com o advento da vida agrícola, as uniões se tornaram mais permanentes. Sob o sistema patriarcal o homem considerava antieconômico divorciar-se, porque de fato isso consistia em perder uma escrava. Como a família se tornara a unidade de produção social, o progresso vinha do tamanho e da coesão das famílias; era vantagem que a união se prolongasse até que o último filho estivesse criado. Mas quando essa época finalmente chegava, já pouca ou nenhuma energia restava aos cônjuges para um novo romance. O que de novo trouxe o divórcio ao mundo moderno foi a indústria urbana e a consequente redução do tamanho e da importância econômica da família. Em nossos dias, um dos principais fatores que freiam os divórcios é a divisão dos bens; mas o homem moderno já encontrou uma nova forma de garantir os bens que considera seu através dos modernos contratos "pré-nupciais". 
                 Em geral, através da história, os homens sempre quiseram muitos filhos, e por essa razão declaravam sagrada a maternidade; mas as mulheres, às quais cabia todo o peso da reprodução, secretamente se rebelavam e usavam todos os meios para escapar à essa carga. Os homens primitivos não tratavam de restringir a população; as crianças eram elementos aproveitáveis, os homens só lamentavam que não fossem todos do seu sexo. Foi a mulher que inventou o aborto, o infanticídio e o repúdio à concepção, embora nas sociedades primevas isso só acontecesse esporadicamente. Parece-nos espantosa a verificação da simplicidade de motivos entre o "selvagem" e o "civilizado" quanto à evitação de  filhos: fugir aos trabalhos da criação, preservar a frescura da mocidade, evitar a desgraça da maternidade extra-conjugal, medo da morte, etc. O processo mais simples de reduzir a maternidade consistia em negar-se  a mulher ao homem no período da amamentação, a qual poderia ser prolongada por anos a fio. Às vezes, entre os índios Cheyenees,  as mulheres adotavam o costume de se recusarem a ter um novo filho antes que o primeiro fizesse dez anos. Na Nova Bretanha as mulheres não tinham filhos até dois e tr~es anos depois do casamento. Os Guaicurus do Brasil foram diminuindo de número porque as mulheres se recusavam a ter filhos antes dos trinta anos de idade. Em os papuas, o aborto era frequente; "filhos são carga pesada", disse uma mulher; "nós estamos cansadas de filhos". Algumas tribos moáris usavam ervas, ou alternavam a posição do útero na tentativa de evitar a concepção. 
                Quando falhava o aborto, vinha o infanticídio. Muitos povos admitem a matança do recém-nascido, se aparecia disforme ou doente, ou se era bastardo, ou ainda se a mãe morrera no parto.  Outras tribos matavam os dados á luz sob más circunstâncias; os nativos de Bondei estrangulavam os que nasciam de cabeça; os de Madagascar abandonavam os recém-nascidos ao alcance de predadores, afogavam ou enterravam vivas as crianças que vinham em março ou abril, ou ainda nas quintas e sextas-feiras, ou na última semana de cada mês. Essas datas eram usadas como justificativas para o infanticídio. Se a mulher procriava gêmeos, isso era, em algumas tribos, prova de adultério, já que um homem não podia ser ao mesmo tempo pai de duas crianças nascidas juntas; por isso uma, ou até as duas eram condenadas á morte. A prática do infanticídio prevalecia sobretudo entre os nômades, aos quais o nascimento de crianças constituía embaraço as marchas. A tribo dos bangerangs (tribos da Áustria) matava no nascimento metade dos filhos; os lenguas do Chaco paraguaio, só permitiam uma criança por família, em cada espaço de sete anos; os abipones (Indígenas da Argentina) faziam como os franceses: apenas duas crianças em cada cada, e matavam as que vinham a mais. (evidentemente, em relação á matança, estou falando apenas dos indígenas da Argentina e não dos franceses). Também, quando ameaçadas de carestia, muitas tribos estrangulavam as crianças de peito, outras as comiam. Em regra as meninas eras mais expostas ao infanticídio; às vezes torturavam-nas até a morte a fim de induzir a alma quando de novo se reencarnasse a escolher o sexo masculino. 
                O infanticídio era praticado sem crueldade e sem remorso, porque logo que dá à luz a mãe ainda não nenhum amor instintivo pelo filho. Se a criança vivia algum tempo, estava liberta desse destino; surgia o amor na sua primitiva simplicidade; e em muitos casos a dedicação das mães igualava à das mulheres modernas. Por falta de leite de vaca e outros alimentos adequados, a mãe amamentava o filho até dois anos, às vezes até doze; um viajante conta dum menino que já fumava e ainda não tinha desmamado; muitas vezes uma criança abandonava o brinquedo, ou até o trabalho, para ir agarrar-se ao peito materno. A mãe negra trazia o filho nas costas enquanto trabalhava, e amamentava-o jogando o comprido seio para trás. A disciplina primitiva era indulgente, mas não ruidosa; a criança ficava entregue a si mesma, tendo de enfrentar as consequências da sua estupidez, insolência ou pugnacidade (crianças belicosas, contestadoras); o aprender vinha por si próprio no passo a passo.  O amor filial e o paternal mostram-se muito desenvolvidos na sociedade natural. 
                Perigos e doenças abundavam, de modo que a mortalidade infantil sempre foi alta. O perigo da mocidade era breve, porque as responsabilidades maritais e marciais começavam muito cedo, e os rapazes tinham de enfrentar os trabalhos de defesa dos grupos. Consumiam-se as mulheres no carregar de crianças, e os homens no prover alimentos. Quando o filho mais velho estava criado, os pais, já velhos, nada mais valiam; pouco tempo sobrava para a vida individual, no começo ou no fim duma existência humana. Individualismo, como liberdade, constitui luxo da civilização. Unicamente com o albor da história encontramos homens livres das cargas da fome, da reprodução e da guerra, aptos, portanto, para criar os valores do lazer, da cultura e da arte. 
                 A sociedade de hoje, onde a cultura está altamente desenvolvida, enfrenta um novo problema. Os diversos métodos anticoncepcionais está largamente disponível às classes sociais mais elevadas. Já nas classes que vivem em lugares insalubres como as favelas e comunidades pobres, as jovens de pouca idade estão dando à luz bem cedo, muitas vezes na puberdade. Isto faz com que a menina abandone os estudos para cuidar do filho que geralmente é negado ou abandonado pelo pai. Há casos de jovenzinhas adolescentes que sofrem estupros e não tem apoio dos pais, da sociedade, e nem mesmo do governo. Nas comunidades dominadas pelo crime as meninas muitas vezes são forçadas pelos criminosos a ter relações na mais tenra idade;  na maioria das vezes não recebem apoio nem dos pais que são intimidados pelos delinquentes. Isso forçosamente trás um grande aumento na natalidade nessas comunidades. Além do problema criminal e social, provoca o exponencial aumento da ocupação irregular do solo urbano. Como consequência temos uma explosão no número de nascimentos nas classes mais baixas; enquanto que nas sociedades mais elevadas o número de nascimentos vem diminuindo drasticamente. Independentemente de analisarmos a questão genética dessas crianças (quem é o pai, qual a sua índole e seu nível intelectual), podemos concluir que fatalmente haverá declínio mental até mesmo pelo simples fato da falta de uma alimentação adequada e boas condições de saúde. Como consequência temos o aumento no número de crianças nas classes mais baixas e diminuição nas classes mais abastadas. O resultado final deixo para a imaginação do meu caro leitor. 

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domingo, 22 de dezembro de 2019

OS VERDADEIROS BERÇOS DA CIVILIZAÇÃO

A Vênus de Willendorf  - 10.000 anos.

                Há mais de cem anos os antropologistas vitorianos dividiram a história da evolução da humanidade em três etapas: Selvageria, barbárie e civilização.
  • A selvageria foi o período da qual o homem vive da natureza mediante a caça e  a coleta de frutas e raízes comestíveis.   
  • A barbárie foi o período das primeiras comunidades agrícolas.
  • A civilização surgiu naquelas partes favorecidas do mundo, onde o homem criou a arte da escrita.    
                 Apesar de seu uma característica importante de muitas sociedades antigas, normalmente denominadas civilizações, não é o único critério que devemos usar no momento de determinar a origem da civilização.  
              Na verdade, a palavra civilização está intimamente  ligada a ideia de viver em cidades.  É ali que vemos a arquitetura monumental, templos suntuosos e palácios. A divisão das sociedades em hierarquias de governantes e subordinados foram consideradas como elementos importantes na definição da civilização.  Embora, quando fazemos referência à civilização sumeriana ou à civilização Chang, ou ainda  à própria civilização de nossos dias, aludimos a algo mais do que a uma simples enumeração de critérios; referimo-nos às manifestações das conquistas culturais e intelectuais dos seres humanos. 
                 Sem dúvida, um dos acontecimentos mais importantes na história da humanidade foi  o aparecimento das primeiras cidades, que ocorreu no sul da Mesopotâmia no quarto milênio a.C.  Isto aconteceu devido ao acelerado crescimento da população e consequente aumento da produção agrícola; a agricultura passa a ser adotada como forma de vida, em oposição à caça e a coleta aleatória. Seus numerosos vestígios, hoje, dominam a paisagem. Já naquela época dominavam essa mesma paisagem no sul do Iraque, embora essas comunidades não fossem muito grandes. 
                 Essa mudança radical na forma de viver tiveram enorme impacto na  sociedade, nas religiões, na política e na vida intelectual. 
                 O rio Nilo, as planícies de boa fertilidade e os vales irrigados naturalmente pelo tigre e pelo Eufrates, constituíram, na antiguidade a região com maior potencial agrícola junto às do Indo. Foi ali que se desenvolveram as primeira comunidades agrícolas do mundo. 
            Em Jericó cultivavam-se cereais desde o ano 8.000 a.C. porem essas eram terras que mantinham delicado e frágil equilíbrio, onde era preciso defesa constante, tanto da natureza como dos vizinhos famintos e predatórios vindos do oeste do deserto e das montanhas do norte e do leste. 
               Já o Nilo tinha suas cheias regulares e benéficas; o fluxo das águas destes rios gêmeos, ao subir a leste pelos montes Tauro, é irregular e imprevisível, produzindo condições de seca em um ano e de inundações violentas e destrutivas em outro. A  inteligência humana buscou uma solução pratica para controlar, em parte, a vontade do rio construindo açudes e canais. foi enfrentando essas situações imprevisíveis que as civilizações conseguiram suas conquistas. 
                As primeiras cidades cresceram na Mesopotâmia Meridional durante a última parte do quarto milênio a. C. A religião sempre esteve presente, e cada cidade estava sob a proteção de um deus específico que era mantido num magnífico templo construído para ele e seu séquito sempre numeroso. Como acontece até hoje, arrecadavam dinheiro e administravam as finanças do templo; como esses deuses eram apenas uma fantasia, o dinheiro era utilizado para benefícios próprio e manter as mordomias. Também, como acontece até hoje, o templo era dono de enorme quantidade de bens e terras. O complexo religioso dominava a cidade tanto física como socialmente; seus amplos pátios, depósitos e habitações, bem como as salas de culto que ficavam elevadas sobre uma plataforma situada acima das vivendas amontoadas no setor mais baixo da cidade. 
             Os responsáveis por esse desenvolvimento no sul da Mesopotâmia foram os sumerianos, os criadores da primeira literatura do mundo. A enorme arrecadação dos templos foi um fator decisivo para o desenvolvimento da escrita. A crescente complexidade das contas nos templos obrigou-os a emitir os primeiros recibos, partindo da primeira escrita pictografadas, que já se encontrava em uso desde 3.100 a.C. 
              A administração dessas primeiras civilizações foi muito beneficiada pela invenção da escrita. Os registros escritos encontrados foram  para ajudar os mercadores a fazer contas. Em Tell Brak foram encontradas tábuas de argila contendo material escrito, datados de 3,200 a. C.que provavelmente são as inscrições mais antigas do mundo. Por volta de 2800 a.C., as inscrições tinham-se reduzido a símbolos convencionais feitos em tábuas de argila, batidas de forma de cunha. A esses elementos, os descobridores deram o nome de "escrita cuneiforme". 
                Quase tão valiosa como a invenção da escrita foi a medição do tempo e a criação do calendário. Foi dos sumerianos que herdamos a divisão da hora em 60 minutos e um minuto em 60 segundos; o dia de 24 horas teve origem na combinação da medição do tempo na Mesopotâmia e no Egito. O próprio calendário de 365 dias foi criado no Egito. Chegar a esses números exigiu grande conhecimento matemático.
                 Por volta de 1800 a.C., os escribas dos templos de Sumer e da Babilônia tinham criado a tabuada, já trabalhavam com frações e até podiam resolver equações de segundo grau. Portanto, foram os mestres da ciência exata dessa época que assentaram as bases das matemáticas modernas. 
                Se confiarmos nos geólogos, as áridas regiões da Àsia Central já foram mais úmidas, temperadas e nutridas por grandes lagos. A recessão da última onda de gelo lentamente ressecou essa área, e a falta de chuvas já não permitiu ali a expansão do homem em Cidade s e Estados. As cidades existentes foram abandonadas, á proporção que os homens refluíram em várias direções à procura de água; semienterradas no deserto jazem ruínas como as de "Bactra", que devia ter esfervilhado de população dentro da sua área de 22 milhas de circunferência. Em 1868 uns 80.000 habitantes do Turquestão ocidental foram obrigados a emigar; suas terras estavam sendo inundadas de areia solta. Muitos estudiosos admitem que essas regiões, hoje mortas, assistiram aos primeiros desenvolvimentos do que constitui a civilização. 
               Em 1907 Pumpelly desenterrou em "Anau", ao sul do Turquestão, vasos e outros remanescentes duma cultura possivelmente datável de 9.000 anos as.C., e também outra possivelmente de 4.000 anos a.C.  Cultivavam-se cereais, usava-se o cobre, domesticavam-se animais e ornavam-se em estilo que sugere muita tradição anterior. Aparentemente a cultura do Turquestão já era velha em 5.000 a.C. Talvez até possuísse historiadores que investigavam o passado, na vão procura das origens da civilização, e filósofos que eloquentemente lamentavam a degeneração duma raça decadente. 
                Deste centro, um povo tangido pela seca emigrou em três direções, levando consigo suas artes e sua civilização. Essas artes foram ter à China, à Manchúria, à América do Norte; ao sul da Índia; e a oeste a Elam, à Suméria, ao Egito e mesmo à Índia e a Espanha. Em Susa, na antiga Elam (hoje a moderna Pérsia), foram encontrados restos tão semelhantes aos encontrados em Anau que a hipótese de migração muito se afirma. Um igual parentesco de artes e produtos sugere id~entica ligação histórica entre o Egito e a Mesopotâmia. 
                Não podemos ter certeza sobre qual destas culturas apareceram em primeiro lugar, o que, aliás, pouco importa. Se aqui voltarmos honrosos procedentes e colocarmos Elam e a Suméria antes do Egito, não o faremos por espírito de inovação, mas porque a idade destas civilizações asiáticas, comparada com as da África e da Europa, aumenta à proporção que o nosso conhecimento a respeito cresce. Todas as probabilidades são hoje de que o rio Delta, dos rios da Mesopotâmia, fosse o espectador das mais velhas  cenas do drama histórico da civilização. 
                Sempre que olhamos para o passado, inevitavelmente encontraremos populações que foram extintas como a Polinésia (ilha da Páscoa) e Atlântida.
                 É certo que provavelmente já existiram muitas civilizações que por razões diversas desapareceram. Não podemos deixar sem menção as lendas correntes sobre civilizações destruídas por catástrofes da natureza ou por guerras e que deixaram traços visíveis atrás de si; o recente desaparecimento das civilizações de Creta, Suméria e do Iucatã vem dar apoio a essas lendas. 
               O Oceano Pacífico acumula as ruínas de, pelo menos, uma dessas perdidas civilizações. A gigantesca estatuária da Ilha da Páscoa, a tradição Polinésia de poderosas nações que, em tempo remotíssimo, se formaram na Samoa e no Taiti, a capacidade artística e a sensibilidade poética de seus atuais habitantes, indicam uma glória passada, mostram um povo que não se está erguendo para a civilização, mas que decaiu da civilização para um estado inferior. É no Oceano Atlântico, da Islândia ao Polo do Sul, a elevação central marítima dá algum apoio à lenda que Platão, de modo tão fascinante, nos transmitiu, da civilização florescida num continente situado entre a Europa e a Ásia e que de súbito foi tragado por uma subversão geológica. Schilieimann, o ressuscitador de Troia, admitia que a Atlântida fosse a ligação entre as culturas da Europa e do Iucatã, e que a civilização egípcia proviera da Atlântida. Talvez a própria América fosse parte da Atlântida, e alguma cultura pré-maia estivesse em contato com a Europa e a África nos tempos neolíticos. Possivelmente cada descoberta é uma redescoberta. 
               Também muito provável, como o admitiu Aristóteles, que várias civilizações se formaram, com grandes invenções e luxo, e foram destruídas e obliteradas da memória humana. A história, disse Bacon, é um palco de naufrágios; o que se salvou do passado é muito menos que o que se perdeu. Nós nos consolamos com o pensamento de que assim como a memória individual perde a maior parte das experiências do homem por motivos de sanidade, ou insanidade, assim também a raça humana só preservou das suas experiências culturais o que era mais vivido - ou mais bem fixado. Mesmo que essa herança racial fosse apenas um décimo mais rica do que é, ninguém poderia absorvê-la toda. A história já está muito cheia. 
                O homem moderno, mais do que nunca, corre o risco de extinção. Vários fatores estão presentemente ameaçando a raça humana e também os demais seres vivos que com ele coabitam.  Vírus poderosos ameaçam dizimar populações inteiras, como pé o caso do Ebola; as superbactérias, para as quais o ser humano não está conseguindo antídoto eficaz; o aquecimento global que, pouco a pouco, está provocando a invasão das terras próximas ao mas; a poluição ambiental que irá transformar o organismo dos atuais seres vivos. A cada dia fica mais presente a ameaça de um cataclismo nuclear. Explosões estranhas que estão acontecendo no sol e que os cientistas ainda não conseguiram entender. 25 supervulcões espalhados pelo mundo que estão lentamente expelindo gases estranhos, até então nunca observados. Os pontos negros e os meteoros gigantes que se aproximam lentamente da terra, são algumas das mais palpáveis ameaças à raça humana e a outros seres vivos aqui existentes. Certamente daqui a talvez mil anos, uma civilização bem avançada irá estudar o que aconteceu co a nossa atual civilização. A questão não é se isso irá acontecer, mas sim quando acontecerá. 


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quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

HISTÓRIA DA PIRATARIA - PIRATAS E CORSÁRIOS DO MAR.



Conhecer um pouco da história da Pirataria é importante para conhecermos a índole (extremamente cruel) do ser humano que, infelizmente, ainda prevalece nos nossos dias chamados de "civilizados". Quando mais conheço a história da humanidade, mais amo os animais.

                  Quando ouvimos falar em piratas dos mares, imaginamos que eram apenas bandidos salteadores que navegavam somente para saquear outros navios. Mas não era bem assim. 
             A história da pirataria faz parte da própria história da navegação. Desde os tempos mais antigos, quando surgiu as primeiras marinhas, os navegadores mais atrevidos foram mercadores e guerreiros que sulcavam os mares impelidos pelo desejo de ganho ou conquista, mas que, se a ocasião se apresentasse, assaltavam e depredavam as cidades costeiras ou os barcos que encontravam em sua rota. 
              Os piratas da Malásia constituíram, cerca de 1800, um verdadeiro pesadelo para os barcos europeus que sulcavam as águas em volta de Bornéu, Sumatra e Nova Guiné. 
             Se os Fenícios foram famosos como navegadores e comerciantes, merecem sê-lo também como piratas, profissão esta que não consideravam em nada desonrosa.  Por muito tempo, a aparição de seus navios compridos e finos, pintados de preto, foi recebida com justificável temor em todo o Mediterrâneo. Navegadores e, conforme a ocasião, piratas, foram os Pelasgos, os Helenos e os Egípcios; navios piratas, na antiguidade, infestavam os mares e as costas da Dalmácia, da Ásia Menor, da Argélia e do Marrocos. 
             Vencida Cartado e as cidades aliadas, Roma precisou tomar medidas excepcionais para combater a pirataria que se havia grandemente  difundido durante a guerra contra Mitridates. os Piratas, especialmente os cilícios, que tinham suas tocas na costa meridional da Ásia Menor e nas Ilhas Egeias, capturavam as embarcações mercantis romanas e ameaçavam continuamente as costas da República. Contra ele Pompeu conduziu, em 67 a.C., uma grande expedição militar e, em oitenta e sete dias, destruiu-os. 
             Após a queda do Império Romano, a pirataria refloresceu e, durante toda a Idade Média, os ladrões do mar encheram as crônicas com suas proezas. 
            Quando, com a descoberta do Novo Mundo, os tráficos marítimos transferiram-se do Mediterrâneo para o Atlântico e o pacífico, a pirataria encontrou, nas novas rotas, a isca convidativa das imensas riquezas que da América eram comboiadas para a Europa. E não devemos esquecer, neste quadro, os longínquos mares do Oriente, onde Chineses, Japoneses, Polinésios e Hindus exercitavam a pirataria desde quando as primeiras pirogas e os primeiros juncosa foram embalados pelas ondas. 
      Durante muitos séculos, embarcações e localidades costeiras da China foram, frequentemente, saqueadas por assaltantes vindos do vizinho arquipélago do Japão. 
            Em qualquer época, então, e sobre todos os mares, sempre houve aventureiros que julgavam mais conveniente e menos perigoso  apoderar-se de mercadorias  pela violência. Mercadorias essas que gente honesta costuma adquirir pagando um preço justo. Por vezes, porém, o fenômeno da pirataria não se limita a uma ação de banditismo isolada no mar. Ele se torna mais vasto e adquire uma notável importância no quadro dos acontecimentos históricos. Os Vikings disso são uma exemplo. A escassez de terra cultivável em sua pátria compeliu-os a viver de saque e rapina e, durante cinco séculos, aterrorizaram as costas da Europa. Nestes casos, a pirataria transforma-se em guerra, como acontece ao tempo dos corsários barbarescos que infestavam o mediterrâneo e participam da batalha de Lepanto, ao lado dos navios do Islã. Outro exemplo de prataria organizada, de vastas porções, característica de uma histórica,é dado pela associação dos flibusteiros, que se desenvolveu no século XVII, nas águas das Índias ocidentais.  
             A este ponto precisamos explicar o significado de dois termos - "pirata e corsário" - que, geralmente, são erroneamente empregados como sinônimos. 
                 Piratas são os ladrões do mar, que assaltavam, indiscriminadamente, os navios, para tomar-lhes a carga e, antigamente, para vender como escravos os marinheiros da tripulação. os corsários também assaltavam os navios para saqueá-los, mas sua ação era exercida somente contra as naus de uma nação inimiga de sua pátria. Eles andavam munidos de uma comissão legal ou autorização de seu soberano para exercer a guerra de corso; esta "carta patente"fazia com que os considerassem como combatentes, ao passo que os piratas, quando abanhados e castigados sem remissão e depois enforcados como criminosos comuns,  sobre o mastro do barco que os capturava. 
            Assim, diante dessa distinção, um corsário sentir-se-ia grandemente ofendido se o chamassem de pirata ou bandido do mar; julga-se, portanto, que o pirata era pior do que o corsário, mas, na prática, houve corsários que se comportaram como piratas da pior espécie. O corsário, então, degenerava em pirata, e o "tribunal  das presas", que tinha a incumbência de julgar o comportamento dos corsários, nem sempre foi suficiente para fazer passar como ações de guerra legítima certos abomináveis atos de baixo banditismo.
                Com o progresso do poderio árabe, nos séculos IX e X , os países cristãos viveram sob a contínua ameaça dos piratas sarracenos que, partindo das costas da África setentrional, e da Espanha, infestaram com suas incursões toda a bacia mediterrânea, paralisando-lhe o comércio, devastaram-lhe as costas, conseguiram conquistar a Itália meridional, Sicília, e Provença, Rodes, Creta e as Baleares; no século IX, destruíram Taranto, chegaram a Roma e saquearam-lhe as igrejas. A república de Amalfi combateu-os duramente e o mesmo fez a poderosa frota de Bizâncio. No século XI, os Sarracenos estavam praticamente destruídos, mas, depois de quatrocentos anos, seus feitos foram repelidos e superados pelos piratas barbarescos, que geralmente imperavam sob as ordens dos sultões turcos. Eles eram habilíssimos marinheiros, além de audazes aventureiros. 
           Entre estes salteadores, recorde--se o famoso Khair-ad-din, conhecido como "Barbaroxa" que foi senhor de Argel e de Tunísia, almirante da frota turca, cerca de 1535. Seus sucessores ocuparam a região compreendida entre marrocos e Tunísia. 
             As costas do mediterrâneo ofereceram seguros abrigos aos piratas, mas estavam também sujeitos às incursões dessa gente. Frequentemente, os Sarracenos desembarcavam nas costas da Itália meridional, saqueando e reduzindo à escravidão os habitantes que não conseguissem fugir. Com o decorrer do tempo, aventureiros europeus de qualquer nacionalidade juntaram-se aos Barbarescos, cujo poderio aumentou sempre mais até tornar inseguras também as rotas e as costa do Mar do Norte. Apesar dos esforços das esquadras inglesas, francesas, holandesas e espanholas, a pirataria barbaresca não dava mostras de desaparecer e, ainda em 1829, muitos países mediterrâneos, como a sardenha, Nápoles, a toscana e outros, pagavam um tributo ao soberano de Argel para não verem seus barcos sistematicamente atacados e depredados. No ano seguinte, a França ocupou Argel e então a livre navegação no Mediterrâneo ficou assegurada. 
               As florescentes repúblicas marinhas italianas, muitas vezes, por causa dos ataques dos piratas, as preciosas cargas que seus navios traziam do Oriente. Sobretudo as aguerridas galeras venezianas deram, durante anos,  caça sem trégua, por vezes inúteis, às embarcações barbarescas que cruzavam o Mediterrâneo, tornando inseguros os ricos tráficos da Sereníssima. 
                Na luta secular contra os barbarescos, distinguem-se os corsários "patente de corso", eles combateram, no mar, os inimigos do Rei da França. Tinham como importante sentido da honra e suas tarefas jamais degeneraram em atos de baixa pirataria; o Rei recompensou-os com graus militares e com títulos nobiliários. O mais famoso de todos foi Jean Bart, honrado como herói nacional.  Em 1672, quando Luiz XIV declarou guerra à Holanda, Jeam Bart tinha 22 anos, mas sua forma de audacíssimo e hábil marinheiro j´pa estava tão consolidada que recebeu o comando de um navio de corso, o Rei Davi. Era uma modesta galeota de 35 toneladas, mas para o corajoso Bart, foi suficiente para atacar e capturar, em sua primeira sortida, sete navios mercantes holandeses. Ao fim da guerra, em 1678, Bart, agora com 28 anos, vencera dez batalhas. Já estava rico, tendo recebido do "tribunal das presas" uma parte dos enormes despojos do inimigo, e o r"Rei Sol" demonstrou-lhe seu agrado, nomeando-o tenente de fragata da marinha real e enviou-o contra os piratas barbarescos. 
                Em 1688, deflagrou a guerra entre a França e a Inglaterra, e Bart exibiu ainda seus incomparáveis dotes de marinheiro e de corsário, efetuando proezas que tem algo de fabuloso. Nomeado cavaleiro de São Luiz e almirante, morreu aos 53 anos, devido a um banal resfriado, após haver arriscado a vida centenas de vezes. Durante três séculos sua família tinha exercido a pirataria; seu avô e seu pai tinham sido mortos quando iam à abordagem, e um seu tio fizera explodir seu barco, com ele dentro, para não cair nas mãos dos ingleses que o circundavam. Os Bart eram originários de Dunquerque, e isso explica sua singular vocação. 
            Realmente a pequena cidade de Dunquerque, de tranquilo centro de pescadores transformara-se em um terrível covil de piratas, após complicadas vicissitudes de domínio, de lutas religiosas e de interesses econômicos, que determinaram em seus habitantes um implacável ódio contra os Ingleses e, especialmente, contra os Holandeses. Os piratas de Dunquerque, favorecidos pela sua posição, interceptaram facilmente os navios de carga que atravessaram o Passo de Calais e caíram sobre eles com seus velozes barcos de fundo chato. 
                No século XVI, o campo de ação da pirataria estendeu-se às novas todas do Atlântico, ao Mar dos Caraíbas, ao Golfo do México, e as Índias Ocidentais foram teatro de novas empresas de banditismo, conduzidas com incrível audácia e, frequentemente, com desalmada ferocidade. Os corsários da rainha Elizabeth, os flibusteiros e os bucaneiros já inspiraram inúmeros romances, mas se pode afirmar que a realidade esteve bem acima da fantasia dos romancistas. 
                Também neste período, a pintura assumiu o especto de característico histórico. Depois da viagem do Colombo, a colonização foi aos poucos se afirmando no Novo Continente, onde surgiram portos, como maracaibo, Santa Maria, Puerto Cabelo, Vera cruz e Panamá. Este último era o coração do império, para onde afluíram todas as riquezas das terras conquistadas, o ouro das minas, dos templos, dos palácios do Incas, as pedras preciosas dos Andes e as especiarias das Filipinas. Do Panamá, os tesouros eram transportados, no lombo de mulas, através do Istmo, e carregados para Nombre de Dios ou Puerto Cabelo, para os navios que viajavam rumo à Espanha. Da metrópole, expediam-se para as colônias os produtos indispensáveis para sua subsistência: manufaturas, tecidos, utensílios, mas em quantidade insuficiente às necessidades. O governo espanhol impusera o mais absoluto monopólio sobre o comércio entre o Velho e o Novo Mundo, nos quais, em consequência, se sentia falta de muitos bens de consumo. Surgiu, assim, o contrabando e, deste,à pirataria, o passo foi breve. Já em 1636, um navio de contrabandistas franceses apoderou-se de uma embarcação espanhola e, sucessivamente, a pirataria assumiu proporções tais que ameaçava seriamente o poderoso espanhol. Em 1568, as proezas do inglês Hawkins, contrabandista, pirata e negreiro, eram considerados como legítimas pelos seus compatriotas, como protesto pela hegemonia da Espanha. Com ele, iniciou sua carreira Francis Drake, que se tornou um dos mais famosos corsários de todos os tempos. 
              Francis Drake, em 1572, na idade de cerca de 30 anos, chefiava uma audaz expedição contra a cidade de Nombre de Dios e, ao voltar para a Inglaterra, sua fama lhe valeu a admiração e o apoio da rainha Elizabeth. As relações políticas com a Espanha andavam muito tensas e a rainha aprovou um arrojado plano Drake, contribuindo até, pessoalmente, com mil coroas para seu financiamento. Drake propunha-se ferir o império espanhol, ou melhor, atacá-lo pelas costas, de surpresa, em suas cidades riquíssimas, na costa do Pacífico, que estavam pouco ou nada defendidas, porque se consideravam ao abrigo das incursões pelo mar. Ele partiu de Plymouth, em 1577, com cinco navios. Refazendo o roteiro de Magalhães, tocou por primeiro em Cabo Horn e entrou no Pacífico, caindo sobre alguns espanhóis e sobre localidades do litoral. Em primeiro lugar, seguiu para o norte, rumo à baia onde surge, hoje, São Francisco; depois seguiu para o oeste, tocou nos Molucas, dobrou o cabo da Boa esperança e, após três anos de ausência, voltou para Plymouth, com um único navio e a tripulação dizimada, mas carregado de despojos. Foi recebido como um triunfador e, nomeado vice-almirante, conduziu com alterna fortuna, mas com constante coragem, outras numerosas expedições. Obteve, ainda, da rainha, um título nobiliário. 
             Nas pegadas de Hawkius e Drake operaram Clifford, Cavendisk, Norton, Frobisher, Raleigh, corsários ou piratas, segundo as circunstâncias. Mas foi justamente neste período que se afirmou o poderio marítimo inglês, retirando da Espanha a hegemonia do mar. Elizabeth promoveu e encorajou, de todos os modos, a guerra de corso, em vantagem da Inglaterra e do tesouro real. Concedeu sua proteção a Sir Waltyer Releigh que, para conservar a amizade da Rainha, homenageou-a com um quinto da imensa presa arrancada dos espanhóis na expedição de 1591. Depois da morte de Elizabeth, a sote de releigh mudou; por ordem de James I, foi decapitado. 
                 A Rainha Elizabeth gostava de ouvir da boca do Drake a narrativa das aventuras por ele vividas em suas viagens em volta do mundo. O nome de Francis Drake, famoso por suas proezas, está também ligado á história da navegação e das descobertas geográficas e, curioso pormenor, ao grande corsário se atribui a entrada da batata na Europa. 
                Com a descoberta da América, os corsários ingleses, holandeses e franceses, sob o patrocínio de seus governos, começaram a bater as rotas do Atlântico, dando caça aos galeões espanhóis. Estes grandes e pesados navios, que Drake chamava de "patos dourados", constituíam a presa mais cobiçada porque transbordavam de tesouros que a América, a nova fonte de riqueza oferecia. 
              Após os grandes capitães da época elisabetana, entraram em campo os bucaneiros, corja de bandidos ingleses, holandeses e, especialmente, franceses, que tinham em comum o ódio contra a Espanha, aliado à ânsia de se apoderarem de suas riquezas. 
               Haiti e as ilhas menores, abandonadas pelos conquistadores espanhóis, e despovoadas de bois e de porcos em estado selvagem. Marinheiros desertores, náufragos, fugitivos e aventureiros de toda espécie ali se haviam estabelecidos desde o início do século XVI e ali exercitavam a caça, levando uma vida assas primitiva, unidos numa espécie de sociedade denominada "Irmãos da Costa". A carne dos animais mortos era vendida aos navios de passagem, após ter sido salgada e defumada pelo método particular empregado pelos Caraíbas, que denominavam "bucan" aos lugares onde as preparavam. Desta palavra derivou o termo "bucaneiros", para indicar os caçadores. Mas, como os bucaneiros se tornavam sempre mais numerosos, os Espanhóis começaram a combatê-los, e, então, os caçadores se transformaram em piratas, estreitando a aliança com os "flibusteiros" ingleses, que tinham suas tocas nas costas da Jamaica. O vocabulário "flibusteiros" (que significou saqueador ou livre bandido) teve, por algum tempo, sentido diferente de "bucaneiro", mas, depois, ambos os termos foram sendo confundidos e serviram para designar, em geral, os piratas das Antilhas. A ilha da Tortuga (Tartaruga) foi a muito bem defendida fortaleza dos bucaneiros e a escala de todos os navios que, naquelas paragens, se dedicavam ao contrabando e á pirataria. 
               Aquele que por primeiro conduziu os bucaneiros a uma ação em grande estilo foi um vandeano, o Jean David Francóis Nau, cognominado o Olonês, o malfeitor mais sanguinário e feroz que jamais infestou os mares. 
              Em 1667, ele eoixou a Trotuga, comandando oito navios, com 400 homens, e depredou as cidades de Maracaibo e Gibraltar, torturando os habitantes, incendiando e destruindo tudo. Depois de outras proezas deste naipe, Olonês acabou prisioneiros de uma tribo de índios, que o esquartejaram. Certamente mais famoso do que o Olonês, mas não menos feroz e ávido, foi o irlandês Henbry Morgam, que iniciou sua carreeira na jamaica como flibusteiro, e na Jamaica a concluiu, com o título de Sir e com o cargo de Vice-governador da ilha, obtidos do rei da Inglaterra Carlos II, em reconhecimento às suas ações de guerra contra a Espanha. Mas os seus foram, acima de tudo, atos de salteador; a tomada de Puerto Cabelo concluiu-se com uma carnificina e com um saque que duraram quinze dias. As populações de Maracaibo  e de Giubraltar foram submetidas a incríveis torturas; Panamá foi destruída por um incêndio. E esta última empresa foi realizada quando a Inglaterra e Espanha mal haviam firmado um tratado de paz. 
              Henry Morgan, que viveu no século XVII, passou à história como uma das mais cruéis figuras da "guerra do corso". Embora fosse um corsário, geralmente, seus feitos eram ainda mais desalmados do que os dois piratas. Entre vários episódios que demonstram sua absoluta falta de humanidade a respeito dos prisioneiros, basta recordar o seguinte: para conquistar a fortaleza de Puerto cabelo, ordenou aos seus bandidos que levassem diante de si, como escudo, frades e freiras, capturados nos conventos da cidade; os religiosos foram todos massacrados. Mas nem todos os corsários foram tão cruéis como Morgam Drake; por exemplo, muitos foram generosos e leais para com os inimigos vencidos. 
               Em fins do século XVII, os flibusteiros foram perseguidos e depois dispersos, também pela França e pela Inglaterra, que até então os haviam favorecido, em consideração aos danos que causaram ao comércio espanhol. 
            Em sua breve carreira de pirata, o capitão Bartolomeu Robert capturou quatrocentos navios. Vestia-se sempre de vermelho e proibia aos seus homens que jogassem dados aos domingos. Era abstêmio, mas, quando foi surpreendido por uma belonave inglesa, sua turma estava embriagada. Roberts morreu no tombadilho do seu barco. 
               Uma volta à pirataria verificou-se depois do tratado de Utrecht (1713), quando, tendo ficado decidido o desarmamento dos navios de guerra e de corso, muitos capitães preferiram às paz o banditismo no mar. A ilha da Providência, ao sul da Flórida, foi refúgio dos piratas com bandeira de crânio e tíbias cruzadas. E os tristes heróis do Jolly Roger chamaram-se Roberts, Teach, "Barbanegra", capitão Kid, John Avery. Muitos desses delinquentes morreram na forca, castigados pelos seus próprios compatriotas. 
               A guerra de corso teve um despertar em 1806, quando a Inglaterra instituiu o bloqueio aos portos franceses e Napoleão Bonaparte resolveu fechar o Continente às mercadorias britânicas. Ainda algum episódio de pirataria se verificou em todo o século passado, especialmente nos mares orientais, mas também no Mediterrâneo. 
              Durante o  conflito de 1914 x 1918, alguns navios alemães conduziram guerra de corso nos oceanos. O Endem, que, ao deflagar a guerra, se encontrava na China, os os cruzadores auxiliares de Möwe, Wolf e Seeadler, que conseguiram furar o bloqueio britânico às águas germânicas, foram os últimos navios corsários. 
                Em 1826, José Garibaldi encontrava-se no Bergantim "Costanza", que foi depredado, no Egeu, por dois caiaques de piratas gregos. A Grécia estava, então, em revolta contra os Turcos, e seus corsários assaltavam as galeras dos dominadores. Não faltam, porém, os piratas que, impelidos pela miséria, atacavam barcos de outras nacionalidades. 
          A seguir, a navegação a vapor, o controle dos mares, a radiotelegrafia, puseram termo a esse fenômeno que, se por vezes se revestiu de certos aspectos sugestivos e romanescos, foi, certamente, um dos mais tristes na longa história da Humanidade. 
             Hoje, com muita frequência, usa-se o nome da democracia para forjar as grandes atrocidades que o mundo continua assistindo. Hitler subiu ao poder em nome do povo alemão, e não é preciso lembar as gigantescas atrocidades que promoveu, até mesmo contra o próprio povo que o elegeu. Muamar Kadafi, um ditador recente, tomou o poder ainda muito jovem e durante 42 anos torturou, principalmente jovens mulheres de sua guarda pessoal e crianças que mantinha em seu harém; diante do resto da humanidade posava de grande estadista. Agora temos novos ditadores atuando pelo mundo. Muitos sobem ao poder com o único objetivo de enriquecer ilicitamente saqueando o próprio pais e  seu povo que o elegeu. Não preciso dar detalhes porque o povo brasileiro conhece bem essa história. São os piratas da moderna civilização.